O que acontece quando uma cidade respira música

Paul McCartney e a noite que colocou Florianópolis no mapa dos grandes shows

Nos últimos dias voltei a viajar pelos cenários da década de 60 com os Beatles. Graças ao livro de Hunter Davies, As letras dos Beatles: A história por trás das canções — minha leitura atual —, estou sentindo novamente aquela conexão cotidiana que sentia com o Fab Four aos 16 anos. Por coincidência, nesta mesma semana tivemos o lançamento do Anthology 4. E toda essa imersão me levou de volta a 19 de outubro de 2024. Estádio da Ressacada. Sul da Ilha…

O dia em que um Beatle esteve de volta em Florianópolis.

Nada de “aí vem o Sol”. Naquele dia o céu estava ameaçando chover desde cedo. Quando a chuva começou a oficialmente cair — de maneira mansa, quase como se quisesse fazer parte daquele momento histórico sem atrapalhar —, os portões já haviam sido abertos e avançávamos lenta e pausadamente na Saul Oliveira.

As capas começaram a aparecer, transparentes e amarelas. Por baixo delas, camisetas e bonés com estampas do rosto de Paul McCartney, encartes de discos, a logo dos Beatles, letras reconhecíveis a quilômetros de distância. E as pessoas que as vestiam? Idosos, senhores e senhoras de meia-idade, jovens adultos, adolescentes… e crianças (que talvez nem soubessem direito quem é Paul McCartney, mas tenho certeza de que daqui uns anos serão extremamente gratas por terem estado ali, naquele momento).

Afinal, quem é de Santa Catarina sabe: quando um show de estádio é anunciado, a primeira dúvida não é “vamos?”, mas sim “para qual estado?”. São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre. A rota é sempre para fora, nunca é a nossa capital.

Mas não naquela noite.

Não precisei me preocupar com preços de passagens, horários de voo, reserva de hospedagem. Não precisei sair de casa quatro horas antes da abertura dos portões para chegar em uma posição não tão cansativa na fila. Fiz o caminho a pé, pertinho, ouvindo os sons do aeroporto — que não precisei pisar.

E as ruas do Carianos exalavam uma atmosfera diferente naquele fim de tarde. Mesmo a dois mil metros de distância do local, já se podia ouvir ecoando as músicas que embalam tantas memórias, de tantas maneiras diferentes, há seis décadas. Podia-se sentir a expectativa coletiva da multidão, formada de sonhos que estavam prestes a se realizar.